Na maioria das grandes cidades brasileiras, o acesso à terra urbana
pelos grupos sociais mais pobres se dá, na grande maioria dos casos,
pela informalidade urbanística e/ou fundiária. No caso do Rio de
Janeiro, onde o fenômeno não é diferente, a questão da terra urbana esteve estritamente
vinculada a processos sociais e espaciais excludentes durante todo o Século XX. Dentre
eles, a segregação sócio-espacial foi um processo marcante de uma urbanização
espoliativa e perversa que se configurou no espaço metropolitano. No entanto,
historicamente, o processo de urbanização espoliativo tem acarretado um somatório de
ações sociais de resistência e sobrevivência por parte dos grupos sociais empobrecidos
na provisão de um dos direitos mais necessários de um cidadão pleno - o direito à
moradia.
Na história urbana do Rio de Janeiro, a mobilização das classes populares em
torno da luta pela moradia assumiu duas dinâmicas sócio-espaciais: numa primeira, no
limiar do Século XX, os pobres urbanos utilizaram os cortiços e produziram as comunidades
como formas habitacionais alternativas frente aos altos valores do mercado imobiliário
e das dificuldades espaciais e financeiras de mobilidade, resultantes da atitude de
localizarem-se próximos ao mercado de trabalho. Numa segunda dinâmica, durante os anos 60 e 70, sob forte ação do Estado e bastante influenciada pela ideologia da casa
própria, as classes populares foram buscar moradia nos loteamentos periféricos,
mesmo tendo de arcar com os custos sociais da iniciativa. Além disso, pode-se
acrescentar a atuação direta do Estado na transferência dos pobres urbanos para áreas
longínquas do centro através da construção dos Conjuntos Habitacionais durante as
décadas de 50, 60 e 70 (ABREU, 1987).
Com base neste contexto, podemos observar que a luta pela moradia popular
durante o Século XX empreendeu uma série de ações sociais que visavam a provisão de
um direito essencial para o bem estar social dos indivíduos. No entanto, nos anos 90, a
apropriação do espaço urbano pelos pobres ganhou novos contornos através de ações
sociais de refuncionalização de espaços industriais desativados situados nas áreas
centrais da cidade. São muitos os exemplos que observamos ao percorrer as principais
vias de circulação dos subúrbios industriais. É nesta questão que pretendemos nos
dedicar em nosso projeto para a explicitação de um caso e sua respectiva análise no que diz
respeito à presença desta forma espacial na estrutura urbana, bem como, a sua
organização e refuncionalização espacial.
Assim, pretende-se analisar neste trabalho o processo de refuncionalização
espacial da antiga fábrica de produtos alimentícios da Cooperativa Central dos
Produtores de Leite (CCPL), localizada no bairro de Benfica. A fábrica foi desativada em
fins da década de 1990 e já nos primeiros anos do Século XXI foi ocupada por pessoas
sem teto, por moradores de comunidades vizinhas e da periferia metropolitana.
Esse pequeno trecho do trabalho de um aluno da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Pedro H. Oliveira Gomes/2009), define perfeitamente a localização histórica e espacial da comunidade CCPL, a qual iremos tentar realizar um projeto social, cuja origem é de um curso de agentes de vigilância em saúde da secretária municipal de saúde da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro.